23 de fevereiro de 2019

Silvio Bermann


O que irá dentro de nossa pirâmide?

 A pirâmide é um monumento funerário. Assim o utilizaram os povos antigos, como os egípcios por exemplo. Os faraós as construíam para servir de morada no mundo para onde acreditavam que iriam depois da “morte” (transição) do corpo físico, que não pereceria após feita a passagem se este estivesse bem conservado – daí adotarem o processo de mumificação. Como a vida teria continuidade, determinavam aqueles governantes que fosse colocado dentro da megaestrutura tudo de que precisariam na outra vida, como riquezas, objetos pessoais, animais de estimação e até escravos, que eram executados e enterrados juntamente com o faraó.

 Vamos comparar o edifício filosófico-existencial de nossas vidas com uma daquelas pirâmides. Embora nossa civilização, por demais influenciada na fé judaico-cristã não acredite que iremos precisar, na vida pós-morte, dos bens materiais que aqui têm razão de ser, muitos agem de forma exatamente ao contrário. Há pessoas que, ao invés de cativarem amizades, buscarem o conhecimento que traz a sabedoria, procurarem utilizar seus recursos para fazer o bem e elevar mente e espírito a serviço de causas nobres e superiores, fazem exatamente o contrário, dedicam suas (breves) existências ao mero acúmulo de bens materiais como se pudessem levá-los consigo, enterrados na tumba – convenhamos, infinitamente mais modesta que uma daquelas pirâmides – para servi-los na vida que supostamente se seguirá depois que a atual se extinguir.
Não há nada de errado em se possuir bens materiais e utilizá-los como ferramentas para se conquistar uma vida terrena mais digna para si e, preferencialmente, também disponibilizá-los para de alguma forma transformar para melhor a existência do semelhante que nos cerca e a própria evolução da comunidade onde se está inserido.

 Os bens materiais são, assim, um meio e não um fim em si mesmos. Entretanto, há quem os acumule obstinadamente, sem mesmo aproveitar-se do bem que poderiam gerar para si e para o mundo, como se fosse possível, ali na frente, colocar todas as riquezas que se amealhou dentro da última morada do corpo que já chegou ao limite de sua validade e será, enfim, depositado na terra para que retorne ao pó de onde um dia surgiu. Estamos em pleno século 21 e, por incrível que pareça, ainda existe quem viva de acordo com tal desiderato. Não, não iremos comparecer perante um Tribunal de Osíris e nem nosso coração será pesado para avaliar nossos feitos e merecimento, como acreditavam os antigos egípcios. Nem tampouco precisaremos de ouro, joias e, menos ainda de dólares, euros ou reais para darmos continuidade a nossa trajetória no pós-morte.

 Há um código segundo o qual o verdadeiro guerreiro só pode possuir aquilo que pode carregar consigo. A máxima, certamente, faz alusão a bens como roupas para nos cobrir, uma manta para abrigar do frio, uma espada para a defesa, algum alimento para a jornada e, sobretudo, habilidades para sobreviver às adversidades e perigos. Por analogia, podemos entender que, mesmo se pouco ou nada tivermos de bens materiais, temos, todos, capacidade quase ilimitada de carregarmos uma enorme bagagem de conhecimento, sabedoria e, principalmente, de cativarmos respeito, amizades e levarmos nossa vida da forma mais reta possível de acordo com nossa capacidade e disciplina. Esses, sim, são tesouros que nos serão muito úteis na pirâmide que estamos construindo com nossa própria existência. Haverá alguém a nos perguntar, no derradeiro momento: - O que fizeste? O que ofereces? E, se assim for, o que responderemos? Carpe diem!

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