Silvio Bermann


Coral Maluco Beleza: exemplo de vida, lição de amor

 Realizei, na terça-feira passada (14), uma das entrevistas mais marcantes de meus 25 anos de rádio-jornalismo, recebendo no estúdio da Rádio Upacaraí o Coral Maluco Beleza, do Caps (Centro de Atenção Psicossocial), órgão ligado à Secretaria Municipal de Saúde. Tratamos, aqui, de pessoas de bem, cidadãos que tiveram seus problemas com dependência química, com depressão – o mal do século -, e encontraram socorro nessa instituição, inserida que é na filosofia da causa antimanicomial, que prevê a inclusão dessas pessoas na vida de todos nós, em meu entendimento por duas razões absolutamente indiscutíveis: primeira, que as causas dessas mazelas sociais podem alcançar a qualquer um de nós, uma vez que às vezes a cruz que nos é imposta é pesada demais para que alguns possam suportá-la. Portanto, somos todos interdependentes e devemos ser solidários considerando o peso que alguns carregam sem maior esforço e que outros se ressentem demais ao recebê-lo. Estamos falando, então, de ‘Humanidade’; segunda, que, se insensíveis o formos para acolher essas pessoas por compaixão, o devemos fazer por, pelo menos, uma questão de justiça. Afinal, são cidadãos como outros quaisquer, que têm direitos de serem tratados com dignidade como determina a Lei Maior de nossa Nação (a Constituição Federal), infelizmente nem sempre cumprida.

 Confesso que me emocionei com a performance de nossos coralistas, que compareceram ao estúdio com uma representação de seus integrantes, que são 15 ao todo, oportunidade em que ouvi suas histórias, compartilhei de seus talentos e procurei entender suas motivações e, principalmente, identificando neles o que, para mim, é uma das maiores virtudes que o ser humano pode cultivar: a gratidão. De um ouvi: “Tentei várias vezes tirar minha vida. Se não fosse pelo Caps eu hoje não estaria aqui!”. Em outro, que foi acolhido no grupo por sofrer de depressão - mal felizmente espantado pela competência do trabalho realizado por aquele órgão -, notava-se evidente a alegria que aquela pessoa nos sentia ao falar de seu problema como algo do passado; outra integrante enviava beijos a seus filhos e netos, que a escutavam pelo rádio naquele momento, e assim por diante.

 Afinal, que mal e seus sofridos frutos podemos criticar, hipocritamente, ao sofrer tal destino um de nossos semelhantes? Khalil Gibran nos ensinou: “Que é o mal senão o próprio bem torturado por sua fome e sede? Em verdade, quando o bem sente fome, procura alimento até nos antros escuros, e quando sente sede, desaltera-se até em águas estagnadas”. O que significa, meus amigos, que por nobre e elevado que seja o espírito, há vezes em que até o céu se prostra à lama, porque a dor é maior do que se pode aguentar. E é aí que alguém precisa de uma mão estendida.

 Assim é que o Coral Maluco Beleza, ao interpretar a canção homônima de Raul Seixas, evocou – e continua a fazê-lo, certamente, em cada uma de suas apresentações -, uma profunda reflexão sobre o que consideramos ‘normalidade’, e também sobre os valores que podem ser injustamente distorcidos em qualquer aglomerado de gente: “Enquanto você se esforça pra ser/ Um sujeito normal e fazer tudo igual/ Eu do meu lado aprendendo a ser louco/ Um maluco total, na loucura geral/ Controlando a minha maluquez/ Misturada com minha lucidez...”. Provoco-lhes agora: quem não for um pouco louco, que atire a primeira pedra.

 Cumprimento a todos do Caps, coordenado pelo Vagner Vargas Oliveira, e de forma especial a Leonel Oliveira Gomes, funcionário público municipal lotado naquele órgão (além de competentíssimo técnico em Enfermagem de nossa Santa Casa), a quem deve ser atribuído o merecido mérito de ser o idealizador do referido Coral, surgido como uma Terapia de Canto em fevereiro de 2007, durante a administração do saudoso e inesquecível prefeito Francisco Alves Dias – nosso querido ‘Chiquinho’. Leonel é um visionário, responsável ainda por engendrar, como criatura espiritualizada que é, ideias como o Grupo Teatral Surtou Tchê; o time de futebol Mente Humana; Piquete (tradicionalista) Duas Almas; e a Horta Cultivando Vidas, além de ter ajudado a criar a arte da Terapia de Música Harmonia e Luz, este idealizado pelo instrutor de música Moisés Pereira Suarez. Todas essas são oficinas do Caps que serão apresentadas oficialmente – embora preexistentes - no dia 28 de agosto, às 17h, durante evento no Country Clube.

 Abraço, com carinho, todos os componentes do Maluco Beleza, começando pelos mais antigos no grupo: Iara, Tânia, Carlos Roberto, Paulo Sérgio A. e Antônio, e seguindo com Lisiane, Rita, Divanir, Marineli, Rosa Maria, Paulo Sérgio R, Patrícia, Gládis, Silene e Suelem.

 A exemplo do que fiz quando reivindiquei, insistente e publicamente, ao prefeito Chiquinho, a compra de um piano de cauda para nosso Conservatório, que ele chegou a adquirir ainda em sua gestão, embora o instrumento tenha chegado ao município no governo que se seguiu, registro agora um pedido especial ao atual Executivo Municipal, na pessoa do prefeito Mário Augusto – que é pessoa culta e sensível -  no sentido de que disponibilize sempre viaturas da prefeitura para deslocamento do grupo em participações e eventos; ainda,  capinhas novas (uniformes) e disponibilidade do instrutor de violão, o Moisés, que é cedido dos quadros do Instituto Artístico Carlos Gomes (Conservatório), sempre que necessário, inclusive para apresentações fora da cidade.

 O Coral Maluco Beleza, na administração de Chiquinho, chegou a participar do 1º Encontro de Corais de Caps, realizado em Porto Alegre, e desde então não mais se apresentou fora de nosso município. Essa valorização do Coral, em minha opinião, deve ser uma das prioridades de todos nós, que desejamos mais investimentos na cultura e na humanização desta cidade, forma mais adequada, a nosso ver, de nos contrapormos à onda de selvageria e violência que, infelizmente, ainda poucos - mas barulhentos indivíduos -, tentam impor ao meio civilizado de vida que os cidadãos de bem almejam para esta comunidade. Ai do povo que não investe em sua cultura! Carpe diem!

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