Pesquisadora Stephani Moreira conta sua experiência em Dom Pedrito
A cientista Social, com mestrado em Antropologia chegou à Capital da Paz no início de agosto a fim de realizar uma pesquisa de doutorado pelo Programa de pós-graduação de Estudos Étnicos Africanos da UFBa, além de procurar conhecer um pouco mais de suas origens. Na época ela nos contou que estava realizando uma pesquisa sobre ancestralidade familiar negra, e como ela tem familiares na cidade, nada melhor do que iniciar o trabalho a partir da referência de sua própria família.
Na semana que passou, Stephani concluiu, ou melhor, interrompeu a primeira etapa de sua pesquisa.
Dizemos que o trabalho foi somente interrompido porque, segundo ela, a ideia inicial era de, neste período aqui no Sul, entre pesquisas documentais e entrevistas, alcançar todos os pontos de seu trabalho, só que no transcorrer de suas atividades, outras situações foram surgindo, suscitando a necessidade de incursões mais longas na pesquisa, incluindo deslocamentos para o interior no município, o que, devido ao fato de sua pesquisa não ser financiada, Stephani precisará retornar no próximo ano.
No seu processo de pesquisa, ela contou que o Museu Paulo Firpo foi muito importante, onde ela pode consultar o Jornal Gazeta Pedritense de 1884 a 1886 e fazer uma leitura do contexto social do final do sécul XIX em Dom Pedrito, do movimento abolicionista e como a mídia se pronunciava diante das questões relacionadas à escravidão na época. Sobre esse período, em particular, a pesquisadora encontrou muitas notícias relacionadas à violência, inclusive, protagonizadas pelos próprios praças, assaltos, invasões, feminicídios, abuso de crianças intrafamiliar, sempre sob o prisma das elites.
As entrevistas foram, também uma fonte de informações, visto que ela conversou com várias pessoas com mais de 90 anos, relatos que deverão dar bastante corpo ao seu trabalho.
Entre os relatos que colheu, Stephani se deparou com narrativas que hoje causa mal estar à maioria das pessoas, como o que contava o tratamento do homem branco pobre nessa época, que recebia, muitas vezes o mesmo tratamento do negro escravo ou recém liberto, ouvido expressões do tipo: "Branco pobre, preto é". Lembre-se de que estamos falando do situações vividas no final do século XIX, e início do século XX.
Durante sua estada em Dom Pedrito, Stephani realizou palestras e oficinas em diversas escolas da cidade, inclusive na Unipampa, com temas como a educação antiracista, por exemplo.
Foi uma forma dela entender como as pessoas pensam a questão racial, que é diferente em cada lugar.
Foi um momento de reflexão e de debates. Muitas pessoas brancas lhe dirigiam perguntas, umas por simples falta de informação mesmo e outras com a intenção de deslegitimar a sua fala, ou seja, racistas.
Mas ambas as situações serviram para que pudesse formar uma imagem desse contexto, e para seu próprio fortalecimento.
Mas Stephanie contou que, de forma geral as pessoas muito acolhedoras, tanto na família que teve oportunidade de conhecer, como nas instituições, onde as pessoas foram bastante educadas e solícitas em ajudá-la a encontrar documentação, indicar caminhos, notadamente o Cartório de Registro Civil, na pessoa de seus servidores.
A pesquisadora tem, ainda, 2 anos para se formar, e deverá utilizar esse tempo para realizar outras entrevistas, visto que considera importante o relato oral de pessoas mais velhas, que traz conteúdos que não estão em documentos.
Stephanie retornou, então, para Salvador - BA, onde permanecerá dois meses em trabalho com os dados coletados em Dom Pedrito e depois, provavelmente seguirá para a Colômbia, porque ela foi aprovada para um intercâmbio de doutorado na Universidade de Antioquia, em Medelín, onde deverá ficar por seis meses fazendo leituras afrocentradas, pela perspectiva latinoamericana. Depois, de volta ao Brasil, recomeçar a escrever e provavelmente, retornarar a Dom Pedrito e dar seguimento a sua pesquisa, especialmente na zona rural, onde colherá mais alguns depoimentos.

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