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10 de março de 2020

Caso Emanuelle: uma vida interrompida e uma família que chora a falta da filha


Uma vida pela frente interrompida no final da tarde de quinta-feira, 5 de março de 2020, data que ficará marcada para os familiares, vizinhos e amigos de Emanuelle Lemos Simões de Lima, a Manu. A reportagem do Folha, com exclusividade, esteve na casa da família entrevistando a mãe, Fernanda Lemos Simões, e o padrasto, Ademir Camargo Pereira, que foi quem criou a menina desde seus primeiros anos de vida e era quisto tal qual um pai para ela.

Sob forte emoção, Fernanda, que ainda nem se quer teve coragem de sair de casa e passar pelo local onde a filha foi alvejada, contou ao Folha como foi o fatídico dia que jamais sairá de sua memória.  

A tragédia
Era tarde de quinta-feira, Manu estava em casa, havia acabado de chegar da escola Arthur Villamil de Castro, onde estudava na 8ª série. Sentou para conversar com a mãe, mencionou que estava com fome e como já era o horário em que os pães ficavam prontos para serem vendidos na padaria, pediu dinheiro para sua mãe e se dirigiu até o local. Segundo a família, era por volta das 18h o momento em que ela pegou a bicicleta e foi até a padaria. "Não deu nem dois minutos e a vizinha já gritou: 'é tiro'. Quando eu saí para ver, a bicicleta dela estava no chão e a coleguinha dela já veio dizendo 'tia, a Manu levou um tiro' (nesse momento Fernanda começa a chorar durante a entrevista).  Ela estava tapada de sangue, tirei a roupa dela, até achei que o tiro tinha acertado o peito, mas não, era o sangue da perna. Um dos policiais disse que tinha que esperar a ambulância, mas não queria que esperasse, pedi a ajuda numa vizinha que tem carro, mas quando voltei a Polícia já tinha levado ela pro Pronto Socorro, onde não deixaram eu entrar num primeiro momento, mas me disseram que ela tinha levado um tiro na perna e estava bem", declarou a mãe da vítima.

Passado um certo tempo, a mãe é autorizada a entrar no Pronto Socorro, onde encontra a filha acordada, mas perdendo muito sangue. A menina diz para sua mãe que quer ir embora para casa e pergunta o que estava acontecendo. A mãe responde que ela levou um tiro e precisa ter calma. Emanuelle então pede que sua mãe dê a mão para ela e ali as duas ficaram até a mãe ser informada por uma enfermeira, que a menina teria que ser removida para Pelotas. "Até questionei, se foi um tiro na perna o porquê levar ela para Pelotas?", relembrou Fernanda, afirmando que nunca os profissionais que atenderam a menina falaram da gravidade do caso. Segundo ela, em nenhum momento foi dito para a família que o tiro havia atingido a artéria femoral da menina.

Durante a entrevista, a família lamentou e manifestou profunda indignação com a falta de equipamentos na ambulância que conduziu a menina, onde, conforme testemunhado in loco pela reportagem, nem se quer adaptadores para tomadas a ambulância possuía, tendo que conseguir emprestado com um comércio das proximidades os adaptadores, para que a ambulância pudesse sair do município, enquanto a menina aguardava o deslocamento sedada, devido a estar muito agitada. A família também reclamou da ausência de um médico no atendimento da menina enquanto ela estava no PS, tendo em vista que quem mais permaneceu durante praticamente todo o tempo com Emanuelle foram as enfermeiras, as quais a família ressaltou que tiveram um atendimento diferenciado. Entretanto, a família acredita que um médico mais experiente e especialista para conduzi-la a Pelotas seria o recomendado para tal atendimento.

Manu morreu na chegada à cidade de Bagé. A ambulância parou às margens da BR 293, houve tentativa de reanimar a menina, entretanto ela acabou vindo a óbito. Um fato curioso relatado pela família, é de que mesmo com a confirmação da morte da menina, os profissionais ainda queriam levá-la para Pelotas, entretanto a mãe dela disse que não teria o porquê levá-la, sendo que ela já estava morta, momento em que retornaram ao município.

Estudiosa e prestativa: Manu cuidava do irmão pequeno e da avó que é cega

Segundo a família, a menina gostava estudar, ler e desenhar. Tudo que iria fazer pedia permissão à sua mãe. Uma das principais atividades e uma de suas prediletas, era dançar e se divertir com as amigas na área de casa.

Emanuelle, ainda ajudava a mãe a cuidar a avó, a dona Maria Elizabete Lemos Simões, de 65 anos, que ficou cega há alguns anos e tinha na neta uma cuidadora e amiga, que a auxiliava em suas atividades domésticas. Quando a mãe, que trabalha como doméstica, ia trabalhar, ela também cuidava do seu irmão, Erivelton Simões Pereira, de 6 anos, que desde a morte da irmã, não quis mais ir à casa de sua avó, conforme relataram os pais do menino, que chegou no fim da entrevista e permaneceu durante todo o tempo ao lado da mãe, como se quisesse consolá-la, mas sem dizer nenhuma palavra.

Questionamentos

Tanto a família, quanto a comunidade se perguntam, de quem partiu o disparo que atingiu a menina? Se foi da Polícia, ou do criminoso. A família ainda lamentou o fato da operação ser realizada em um horário em que muitas crianças estavam na rua.

Por parte da Polícia Civil, as armas dos inspetores envolvidos foram recolhidas para perícia. Quem está a frente da investigação é a delegada Daniela Barbosa de Borba.
Quanto a Brigada Militar, foi instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) a cargo de um servidor de Santana do Livramento. As armas utilizadas pelos militares que estavam no momento do fato foram apreendidas para, também, passarem pela perícia.

Família está sendo importunada

Fernanda e Ademir ainda finalizaram a entrevista revelando que estão sendo importunados por muitos advogados, que estão procurando os familiares e se colocando à disposição da família para processar o Estado, podendo a família de Emanuelle ser beneficiada futuramente por uma indenização, o que a família não quer. "Se for para melhorar a saúde para que não existam outras Emanuelles, tudo bem. Mas se for para ganhar dinheiro, não queremos de maneira alguma, porquê nada vai trazer nossa filha de volta", disse Ademir, concluindo que a família quer permanecer em paz, esperando que o passar dos dias amenize um pouco da dor sentida neste momento. 

O Folha se solidariza com a família.

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