27 de janeiro de 2018

Silvio Bermann

Litígio internacional: Masoller ou
 Vila Thomaz Albornoz?
Placa em Masoller. Jango Medeiros correspondente do Correio do Povo
Edição impressa de 20 de janeiro de 2018
 Na semana passada, durante estada de alguns dias em minha Sant’Ana do Livramento, entre os amigos que reencontrei estiveram o Jango Medeiros, que há mais de 30 anos é correspondente do jornal Correio do Povo na vizinha cidade, e o escritor Luciano Machado, este que acabou me presenteando com os dois primeiros exemplares do ‘Almanaque Santanense’.

 O referido projeto editorial – apresentado no formato revista - é, efetivamente, notável, sobretudo porque resgata fatos históricos ocorridos na Fronteira da Paz Rivera-Livramento, bem como destaca personagens ilustres e folclóricos, além de passagens curiosas e interessantes que de alguma forma contribuíram para alicerçar o edifício cultural daquele pedaço único do mundo, onde dois povos irmãos se unem e até confundem sociologicamente, gerando um tipo humano que não é encontrado com tais características em nenhum outro lugar da Terra.
Jango, que tem por nome de batismo João Athaídes Gonçalves de Medeiros, integra a ‘turma’, como se dizia na época, com quem compartilhei minha juventude na fronteira. Éramos um punhado de amigos inseparáveis, estudiosos, festeiros, inquietos e, acima de tudo, ‘do bem’. E Jango sempre teve essa veia empreendedora e até pioneira em termos de iniciativas culturais. Lembro, por exemplo, de quando lançou a revista ‘Campesina’, que, como já sugere o nome, era voltada às coisas da tradição, do telurismo, tendo obtido excelente aceitação nesse meio.

Entrada da Vila Thomaz Albornoz
 Mas, agora, no Almanaque Santanense – sua nova empreitada intelectual -, encontro matéria intitulada “Vila Thomaz Albornoz um mapa contestado na Banda Oriental” que resolvo reproduzir aqui no Folha da Cidade, primeiro a título de conhecimento geral, mas sobretudo pelo fato que o tema diz respeito muito de perto a nós, desta faixa de fronteira, para que nos inteiremos dos encontros e desencontros que forjaram, e ainda o fazem, o mapa destes dois países irmãos – embora neste caso específico se poderia dizer: pero no mucho.

Reproduzo o texto:

Vila de Masoller
 “Lei Uruguaia diz que nos mapas do país, a região deve aparecer como um ‘limite contestado’. No lado uruguaio Masoller e no lado brasileiro, a Vila Thomaz Albornoz – dois povoados contracenando numa geografia de 22 mil hectares, encravadas sob um gigante platô da região da Coxilha Negra. A área é conhecida como Rincão de Artigas e embora, com a reivindicação da terra pelos uruguaios – que data de 1934 quando houve uma reavaliação dos limites -, os dois povos convivem harmonicamente sem nenhum apego às rivalidades ou controvérsias. A Vila Thomaz Albornoz foi instalada em 1984, no apagar das luzes do governo do general João Baptista Figueiredo, último presidente do regime militar no Brasil.

 Na época, o prefeito indicado de Livramento, era o professor Guilherme Bassedas Costa. Os uruguaios reclamavam de um erro na delimitação das divisas, alegando que os brasileiros haviam confundido o Arroio Moirões, mais ao norte, com o Arroio Maneco, no outro extremo. O governo brasileiro não deu muita atenção à demanda então protocolada através de uma menção diplomática na gestão do então presidente do Uruguai, Julio Maria Sanguinetti.
Atualmente com pouco mais de 150 moradores (a maioria uruguaios), a Vila Thomaz Albornoz sofre com a falta de infraestrutura.

 ‘A caixa d’água, a Escola Municipal Bento Gonçalves, um posto de combustíveis, dois bolichos e uma casa noturna, é tudo o que temos aqui’, expressa o morador João Guedes, um brasileiro doble-chapa que vive há vários anos no lugar.

 Os moradores se queixam do atraso na abertura do ano letivo, das estradas, de comunicação e da ausência de serviços de saúde. Enquanto Masoller se projeta com escolas, policlínica, emissora de rádio comunitária e o evento conhecido por ‘Marcha a Caballo por Aparício’, a Vila Thomaz Albornoz recebe uma vez por ano uma Ação Cívico Social (Aciso), quando o Exército Brasileiro comparece na comunidade para oferecer alguns serviços, como elaboração de registro civil e atendimento médico e odontológico”.

 Já o site uruguaio ‘Geo Mundo’ não deixa barato, resumindo assim a situação: “El terreno en disputa es de 22.000ha, un número para nada despreciable. Del lado uruguayo hay un pueblo llamado Masoller, que cuenta con internet, señal de celular y demás servicios.

 Los brasileros intentaron una especie de pueblo (más correctamente, un caserío) llamado Thomaz de Albornoz construido en 1985 en la zona de disputa con intensión de marcar territorio. Como sucede en muchos casos, los habitantes de uno y otro lado no entendieron de los límites y hay un comercio fluido entre ambos aprovechando el contrabando ilegal. Para los interesados en el desarrollo del problema histórico.”

 Infelizmente, este não é o único exemplo que temos de povoados irmãos estabelecidos na fronteira Uruguai-Brasil em que o lado de allá possui condições extremamente melhores de infraestrutura e serviços públicos do que o lado brasileiro. Também se destacam no contexto e em contrapartida, os relevantes serviços prestados pelo Exército Brasileiro, levando os benefícios da civilização e concedendo dignidade, principalmente na atenção à saúde, a milhões de brasileiros isolados nos rincões mais distantes deste país-continente, muitas vezes esquecidos pelo poder público e pelos políticos, que deles só querem os votos. 


Carpe diem!

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