Retomamos nossa série de entrevistas com este que, apesar de não ser pedritense nato, aqui criou laços de amor e amizade que o tornam, com certeza, um pedritense de coração. Policial Civil competente e dedicado, entre um trabalho e outro, ele nos recebeu na delegacia para um bate-papo informal, bem diferente das outras ocasiões que ele costuma aparecer, por conta de sua profissão.
Origem
Com pai de origem portuguesa e mãe de origem italiana, Lauro é quinto de uma família de sete irmãos. Tem 42 anos e é natural de Nova Prata, cidade da Serra Gaúcha, onde cresceu e morou até os 15 anos, quando se mudou para Caxias do Sul. Naquela época havia um grande êxodo de jovens para aquela cidade, mas ao contrário de hoje, eles buscavam o estudo. Concluído o Ensino Médio, veio a época de prestar o serviço militar obrigatório. Ingressou em uma unidade de Artilharia, onde teve a oportunidade de realizar um curso para oficial temporário, lá permanecendo por dois anos. Após a conclusão do curso, o 2º ten Telles foi enviado para a vizinha Santana do Livramento, seu primeiro contato com a fronteira, onde permaneceu por mais seis anos. Ele contou que sua adaptação foi um pouco difícil, principalmente no primeiro ano na nova terra. O estilo de vida da Região da Campanha é bastante diferente da Serra, mas hoje isso pertence ao passado. Lá conheceu uma pessoa, com quem teve uma filha, Sofia, hoje com 10 anos. Findado esse tempo, deu baixa e foi morar e trabalhar em Porto Alegre, em uma empresa de representação de vendas, pertencente a um irmão, período que durou aproximadamente seis ou sete anos.
O concurso para a Polícia Civil
Lauro conta que sempre gostou da área de segurança, e antes de ser aprovado no ano de 2005, chegou a prestar concurso para a Polícia Rodoviária Federal e Polícia Federal. Em 2007 ingressou na Academia de Polícia e no ano seguinte foi designado para trabalhar aqui em Dom Pedrito, e precisamente em 6 de junho de 2008 ele colocava os pés na delegacia local. Lauro teve outras opções de cidade, mas acabou optando por vir o mais perto de Santana do Livramento, cidade onde mora a filha. Já recebeu convites para trabalhar em outras cidades, muitas delas bem mais convidativas que a Capital da Paz, porém, já tinha criado raízes na Terra do Ponche Verde e uma saída já não seria uma decisão tão fácil.
Significado da instituição
Nosso entrevistado resume seu sentimento para com a Polícia Civil dizendo simplesmente que ele está onde realmente gostaria de estar; que não trocaria seu trabalho na polícia por nenhum outro, mesmo compreendendo hoje que as atividades da instituição são bem diferentes da que ele imaginava antes de ingressar na polícia. "O serviço é exaustivo, é estressante, traz uma preocupação constante consigo mesmo, com os colegas e as pessoas que dependem do seu trabalho, trabalho este que nem sempre aparece, mas que só o policial tem a real noção do volume e importância", destacou. E arrematou dizendo que toda essa dinâmica causa uma tensão, não por medo, mas pela responsabilidade diante da vida de outras pessoas. Para lidar com a pressão Lauro fala que, além de gostar do que faz, cada um cria os seus mecanismos de extravasar sua tensão, mas quase todos passam pelas boas amizades, a prática de esportes, e o convívio com a família.
O momento mais difícil
Ao fazemos uma pergunta, muitas vezes prevemos em que sentido será a resposta. Quando perguntamos a Lauro qual foi o momento mais difícil nesses 10 anos de Polícia Civil, pensamos que ele diria que foi, por exemplo, o enfrentamento de algum crime hediondo, de uma morte violenta, ou uma operação perigosa, mas não. Telles disse que ao logo da carreira houve muitos momentos difíceis, relacionados ao seu trabalho, mas, sem dúvida o maior de todos foi quando, mais ou menos dois ou três anos atrás, muitos colegas seus da delegacia local foram transferidos para outros locais ou precisaram se afastar e a equipe ficou muito reduzida, com um volume de trabalho que só fazia aumentar. Lauro e os remanescentes se sentiam impotentes frente ao grande número de casos precisando de uma resposta, situação que foi atenuada no final do ano passado com a chegada de pessoal, destacando a policial Ana Carolina de Freitas, que no conceito de Lauro é uma profissional excelente, e vem, desde então, dividindo com ele a carga de trabalho.
Insatisfações
O volume de trabalho e o pouco efetivo são, sem dúvida, a causa de sua maior frustração. Para se ter uma noção, a delegacia local deveria ter, no mínimo o dobro de policiais para fazer o básico. Mas essa frustração não é com relação à instituição, que trabalha muito dentro de suas possibilidades e em razão do seu quadro de servidores, onde a Polícia Militar também se inclui, está extremamente defasado. A frustração está em não poder atender todas as demandas, muitas delas bastante graves, o que é uma situação compreendida pelos superiores.
Medos
Com relação a esse sentimento, Lauro diz que não possui medo no sentido literal da palavra, até porque se assim fosse, não poderia fazer o que faz. Diz que todo policial tem medo, mas o que acontece é que eles aprendem a controlá-lo. Fala que o medo faz parte da condição humana e em certo grau é algo positivo, visto que a pessoa que não tem medo está sujeita a não tomar os devidos cuidados e cometer erros. Ter medo, para o policial significa ter cuidado, zelo, consigo e com seus colegas. "Tenho mais medo em não dar conta do meu trabalho, o que envolve a vida de outras pessoas, do que com minha integridade física propriamente dita", disse Telles.
Família em Dom Pedrito
Como falamos anteriormente, Lauro recebeu muitos convites para trabalhar em outras cidades, mas que por motivos pessoais, por ter criado raízes em Dom Pedrito, decidiu adiar esta decisão. Bom, foi aqui na cidade que ele conheceu sua esposa, outra grande personalidade local, a médica ginecologista Caroline Sônego, com que teve o filho João Gabriel, hoje com 2 anos e 4 meses.
As circunstâncias em que ele conheceu Caroline foram um tanto atípicas para os padrões comuns, visto que ambos estavam trabalhando, no ano de 2012, ela no Pronto Socorro, ele conduzindo um homem preso para exame de lesões corporais.
Realização
Telles diz que como pessoa se sente realizado, visto que trabalha na profissão que lhe faz bem, e que almejou. Como profissional sabe que já realizou muita coisa, mas reconhece que se houvesse condições de trabalho mais favoráveis poderia fazer muito mais, o que, como dissemos, causa-lhe certa frustração.
O que mais gosta na profissão
Sobre isso, Telles foi enfático: "O que eu mais gosto de fazer no meu trabalho é, quando acontece um crime, eu poder investigá-lo bem, fazer um bom inquérito policial, que vá chegar na mão do juiz e ele avalie que aquele inquérito está bem feito. É saber que aquela pessoa que cometeu um delito, principalmente delitos graves, vá ter a punição que merece pelo crime que cometeu, com base no trabalho que eu fiz".
O futuro
Lauro diz que ainda é cedo para pensar nisso, mas cogita, num futuro em médio e longo prazo, trabalhar em outra cidade, com outras situações, não necessariamente distante de Dom Pedrito. Formado em Contabilidade, pretende, ainda, cursar outra faculdade, provavelmente Direito e, quando se aposentar, seguir desenvolvendo outras atividades, parar, jamais.

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