Coluna Espírita
Aceitação sim,
comodismo não
Não é porque temos eventuais crises de inveja que devemos ser considerados indivíduos “maus”; da mesma forma, quando cultivamos sentimentos esporádicos de generosidade, também não podemos ser chamados de “pessoas bondosas”. Sentir alguma coisa não quer dizer que vamos manifestá-la; significa que, quando nós nos permitimos “sentir”, conseguiremos gradativamente compreender a nós mesmos e, assim, iniciar a nossa transformação íntima. Hammed, psicografia de Francisco do Espírito Santo Neto – Livro A imensidão dos Sentidos.
As colocações acima, onde o espírito instrutor nos orienta, nos consola até, são de extrema valia para todos quantos já abraçaram a Doutrina Espírita, e mesmo para aqueles que, apenas simpatizando com seus postulados, encontram nela um roteiro para seus dias. Uma das fases por que passa o indivíduo, notadamente quando assume uma postura dentro de qualquer doutrina religiosa, é o da cobrança e condenação exagerada de seus atos que considera contrários aos preceitos de sua religião, por exemplo. Em algumas pessoas, o extremismo chega a um ponto em que passa a prejudicar a sua vida de relação, no trabalho, na família, ou em qualquer grupo social. Mas de maneira geral, o ser passa a assumir uma postura de culpa frente a determinados comportamentos que ainda não é capaz de superar. Ele se cobra por não agir diferente e aí vem o sofrimento, o martírio interior. Muitas religiões, em atitudes equivocadas, insistem em fomentar tal comportamento, iludindo seus fieis de que somente com a adoção de posturas austeras e recriminatórias é que se alcançará a chamada salvação. Ledo engano. O incentivo a esta prática acaba por criar no indivíduo uma falsa ideia de que ele é mesmo um “pecador” e muitas vezes o afasta definitivamente de Deus.
O reconhecimento de que somos criaturas ainda bastante atrasadas e em aprendizado constante, fornece ao ser as condições para trabalhar o seu interior e aceitar suas momentâneas limitações. Sentir algo, não quer dizer que iremos manifestar isto em ações concretas, como bem falou nosso instrutor espiritual. O que é preciso fazer diante de sentimentos equivocados, é ter a capacidade de observar este fato como algo a ser trabalhado e não simplesmente negado ou condenado em nosso íntimo. Significa que é preciso desenvolver a capacidade de perceber que ainda se está em determinado ponto da estrada evolutiva em que ocorrências deste tipo, ainda são naturais, fazem parte de nossa condição de seres que ainda estão na infância espiritual, e como tal, a manifestação de sentimentos materialistas, por assim dizer, fazem parte do momento que vivemos.
Por outro lado, considerar esta fase como natural ao estágio evolutivo da criatura, não significa que devamos cruzar os braços e deixar correr livre o carro das paixões, não é isso. Uma vez identificadas nossas mazelas morais, aí está a chance que o homem encontra para tentar domar suas más inclinações, como bem lembrou Allan Kardec, o insigne codificador do Espiritismo, quando considerou as características do verdadeiro espírita. O psiquismo humano do ser encarnado na Terra ainda está cheio de altos e baixos, são muitos os conflitos existenciais a ditar o comportamento do homem e está nele também o dever de buscar, por seu próprio esforço, as condições de evoluir, de buscar melhorar-se como pessoa, como espírito imortal que é. Culpar-se ou considerar-se bondoso por, simplesmente, ter arroubos de maldade ou generosidade, não nos fará melhores ou piores. Mas identificar a ocorrência desses sentimentos e conseguir daí tirar um ensinamento, este deve ser o objetivo de cada pessoa. Estabelecer uma meta alcançável, sem dar grandes saltos, pode facilitar a caminhada do ser em buscar de uma melhor conduta perante si mesmo. No mais, se houver um pouco de esforço, o tempo se encarregará de acomodar todas as peças do quebra cabeça-divino.
Pensemos nisso!

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